
Há de chegar o dia em que meu corpo jazerá sobre um lençol branco bem esticado, no leito de um movimentado hospital, ocupado por vivos e moribundos. Em certo momento, o médico vai dizer que meu cérebro parou totalmente de funcionar e, para todos os efeitos, minha vida acabou.
Quando isso acontecer, não tente inserir vida artificial em meu corpo por meio de máquinas. E não chame isso de meu leito da morte. Chame de leito da Vida. E deixe o meu corpo ser retirado do invólucro para ajudar outros a terem uma vida mais rica.
Dê minha vista a um homem que nunca viu o sol nascer, o sorriso de um bebê ou o amor nos olhos de uma mulher. Dê meu coração a uma pessoa cujo coração nada provou , além de dias de dor. Dê meu sangue a um jovem que foi retirado dos destroços de seu carro, para que ele possa viver para ver os seus netos brincando no parque. Dê os meus rins às pessoas que precisam de uma máquina três vezes por semana para continuar existindo. Retirem meus ossos, cada músculo, cada fibra e nervo do meu corpo e encontrem um meio para fazer uma criança inválida caminhar.
Explorem cada canto do meu cérebro. Retirem minhas células, se necessário, e as deixe crescer para que, um dia, um menino mudo possa gritar "gol" e uma menina surda possa ouvir o barulho da chuva na vidraça.
Queimem o que restar de mim e espalhem as cinzas ao vento, para ajudar as flores a brotar.
Se precisar enterrar alguma coisa, que sejam meus erros, minhas fraquezas e todo o mal que fiz aos meus semelhantes.
Dê meus pecados ao diabo. Dê minha alma a Deus.
Se, por acaso, quiser se lembrar de mim, que seja com uma ação boa ou uma palavra gentil a alguém que precise.
Se fizer o que peço, viverei para sempre.





























