sábado, 27 de dezembro de 2008

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste. (Carlos Drummond de Andrade)
Este texto é para o amigo que se foi antes da hora...
Adeus amigo! Que você esteja bem.

ANO NOVO

Nem sobra nada pra comentar, não é mesmo?
Desejo a todos que me visitam, aos que gostam e aos que detestam o que eu escrevo aqui, um ano cheio de muita paz, muita saúde e muito amor.
Desejo que as pessoas sejam mais sinceras, mais caridosas e mais felizes.
Desejo que as pessoas perdoem mais e que tentem encontrar a felicidade nas pequenas coisas, pois não costumamos dar muito valor a elas. Parece que só damos valor ao que é grande, ao que aparece mais, ao que todos podem ver...
Li em algum lugar a frase "A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro".
Se a gente vivesse cada dia intensamente, tanto as alegrias quanto as tristezas, se não ficássemos esperando ter o que o outro tem, se agradecêssemos o que temos, se procurássemos entender o recado deixado há 2009 anos atrás, talvez fôssemos mais felizes com o que é simples, talvez não nos revoltássemos tanto com o não ter, o não poder e talvez, lidássemos melhor com as perdas e, mais uma vez, talvez, fôssemos felizes de verdade.
Um beijo borbulhante aos meus amigos reais e virtuais.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

OS VENTOS SOPRAM NA DIREÇÂO DE QUEM SONHA

San Martin de Unx, dezembro 1994
Caminho por uma aldeia deserta na Espanha, e escuto uma banda de música. É feriado, todos estão se divertindo numa festa em uma casa particular - menos eu. Estou só, e não tenho com quem conversar.
Há quatro meses estou viajando para a promoção dos meus livros, e me pergunto se afinal vale a pena tudo isto - se não devia largar tudo agora, e voltar para o Brasil.
As ruas da aldeia são estreitas, anoitece, e a solidão fica mais difícil de aguentar.
De repente, ouço a voz de um homem cantando; deve ser o único na cidade que não foi à festa.
“Por que?”, pergunto para mim mesmo. Será que não gostam dele? Será que ele não gosta de festas? De qualquer maneira, escuto sua voz, e sinto que está alegre. Consigo entender alguns versos da canção:
“Nestes dias, todos os ventos do mundo sopram na direção de quem sonha. Nestes dias, a chuva sempre desenha o rosto de quem amamos”.
Anoto os versos num bloco que as vezes carrego comigo. Nunca conhecerei este homem. Nunca saberei seu rosto ou sua idade. E ele nunca saberá que, nesta tarde gelada, me ensinou que eu não estava sozínho, e me devolveu a alegria e a coragem. (Paulo Coelho)

 
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