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| Peggy, em foto de dezembro de 2011, linda e altiva, no dia de seu último banho fora de casa |
Quando penso em uma dor, não física, mas da alma, do fundo do coração, imediatamente me vem a mente o drama sofrido quando tive de tomar a pior e mais difícil decisão da minha vida. Não é exagero não. Foi a pior coisa que me aconteceu, quando tive de decidir a vida ou a morte de uma amiga de longos anos.
Sabe aquela amiga que fez parte dos momentos bons e ruins e que nunca te deixou só, que sofreu com você, que ficou feliz por você... Aquela que dizia tudo apenas com um olhar e que a gente entende no silêncio?! Pois é. Assim foi com a Peggy. Minha poodle, que me acompanhou por 18 anos. Como me casei cedo, ela ficou mais tempo comigo do que meus pais. Como me separei depois de 17 anos, passou mais tempo comigo do que meu ex. Portanto, foi ao lado dela que mais tempo passei a minha vida.
Ela sempre esteve em todos os momentos.
Me deu muitas alegrias e muitos sustos também. Era marrenta, se ofendia por nada e saía do recinto como se não fosse voltar nunca mais. Voltava logo depois, mas primeiro fazia tipo...
Se alguém me perguntasse sobre um grande amor, além dos normais, ela teria destaque.
Mas, como tudo na vida, ela se foi.
Tudo seria normal se ela tivesse ido sem a minha participação, sem o meu “sim” final.
Afinal, eu não podia querer mais, pois já tinha tido o privilégio de tê-la comigo por 18 anos. Mas porque sobrou pra mim a decisão de viver ou morrer? Aí entra a dor mais doída, mais triste e angustiante que alguém possa sentir.
Apareceu um tumor, pequeno, uma bolinha debaixo do braço esquerdo. Levei ao veterinário e ele disse que era melhor esperar, pois ela já tinha dado muito trabalho quando quase morreu em uma cirurgia há oito anos atrás. Pela idade, começou a ter, de um ano pra cá, problemas no coração. Desmaiava sempre que se esforçava ou ficava feliz demais. E demorava a voltar e cada vez que isto acontecia, eu entrava em pânico achando que ela não voltaria. Sofremos muito até encontrar um remédio que parasse com as crises. Mas o tumor crescia e o veterinário disse que ela estava começando a sentir dores e desconforto. Os primeiros remédios para dor foram aplicados e ela melhorava e continuava a mesma, já velhinha, mas linda e elegante como sempre foi.
Um dia o tumor rompeu a pele e ficou exposto. Ela visivelmente sofria, mas aumentamos as doses de remédio pra dor e eu fazia curativos constantes para que ela se mantivesse seca e cheirosinha. Daí as coisas só foram piorando.
No início, pensar em eutanásia estava fora de cogitação. Eu não poderia, em hipótese alguma decidir sobre uma vida. Mas o tumor aumentou e as dores e o mau cheiro e tudo aquilo ia paralisando a minha querida amiga. Já tinha perdido o movimento do bracinho esquerdo e da patinha e sentia que avançava para o pescoço. Nunca sofri tanto em minha vida vendo o sofrimento de uma amiga tão querida. Levamos ela pra praia mais uma última vez, pois nunca deixou de ir e agora, que tínhamos comprado um apartamento lá, ela tinha o direito de conhecê-lo, afinal, participou de todos os projetos para a aquisição dele. Ela parecia saber que seria sua última viagem. Passamos lá muitos dias e ela enfraquecia a olhos vistos. Retornamos e já não sabia mais o que fazer por ela. Estava entre o desespero de tirar sua vida e do medo de estar sendo egoísta mantendo-a em condição tão sofridas.
Resolvi pelo que seria melhor pra ela...
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| Eu e a Peggy: amigas para sempre |
Levei ao veterinário e disse que ela precisava parar de sofrer. Ele perguntou se não queria deixá-la lá, voltar pra casa e pensar melhor. Não! Respondi. Ela nunca ficou longe de mim e deixá-la lá seria mais sofrimento para ela e para mim. Como eu chorava demais, ele perguntou se eu queria tentar uma cirurgia que tiraria o nervo e talvez a dor melhorasse... Aí pesei as consequências: Ela faria uma cirurgia, da qual o próprio médico achava muito improvável que ela saísse com vida por causa da idade; se sobrevivesse, acumularia as dores da doença e mais a da cirugia, o corte, os curativos... “Não!”, respondi. Se ela tem de ir, que seja comigo do seu lado. Não queria que ela morresse ali, na mesa de cirurgia, sem nem mesmo se despedir de mim.
E olhava pra ela, deitada na mesa gelada, tendo sido examinada e esperando que eu, sua melhor amiga desse a palavra final.
Aquilo me matava por dentro. Chorava copiosamente e ela que nunca parava quieta quando ia pro veterinário, naquela manhã, mantinha-se imóvel, só esperando a decisão da qual dependia sua vida ou sua morte.
Eu pedia a Deus que ajudasse, que me desse forças pra fazer o que tinha de ser feito e chorava, como faço agora ao me lembrar de tudo.
E, tirando forças de sei lá onde, mas com muita fé de que estaria fazendo o melhor pra ela, disse que fizesse a eutanásia. Eu já tinha procurado me inteirar do assunto, lido tudo o que tinha a ver com o assunto, o quanto ela sofreria, se sofreria. Procurava em livros espíritas sobre isso, em matérias de revistas e jornais. Como se em algum lugar fosse encontrar alguma coisa dizendo que isso era o melhor pra ela.
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| Peggy, em foto de 2008 |
Não adiantou... a decisão era minha mesmo, só eu poderia resolver se deixaria ela sofrendo ou se trairia a minha melhor amiga pondo-lhe um fim em sua vida.
Era isso, enquanto o procedimento avançava, eu olhava pra ela, calma, imóvel, indefesa. E tudo foi acontecendo como se eu estivesse anestesiada, entorpecida, participando de um filme que estava por terminar.
Ela não se mexeu, manteve a classe, a meiguice e como a se despedir, parecia pedir pra que eu ficasse em paz, porque ela também estava. E tudo se acabou...
Matei a minha melhor amiga. Deixei que tirassem a sua vida e parecia que era pra ficar livre do trabalho que ela estava dando ultimamente, pois eu já não dormia ou dormia no chão com ela pra que se sentisse melhor, mais protegida.
Fui eu seu algoz. Aquela a quem tanto amou e se dedicou, deu a ordem para que tirassem sua vidinha.
O veterinário, que cuidava dela quase que a vida toda também sofria e quando terminou, falou pra colocarmos o vestidinho dela. Coloquei a roupinha, e a tomei nos braços. Parecia só estar dormindo. Na sala da recepção, ninguém percebeu que ela estava morta, pois mantinha os olhos abertos, como dizem ser normal nesse caso. Em silêncio, entramos no carro e voltamos pra casa, onde precisávamos fazer uma despedida decente pra ela. Jamais deixaria que ela tivesse outro destino, senão a casa onde vivemos sempre muito felizes.
Meu marido abriu um buraco no jardim, arrumei uma caixa, forrei com um pano limpo e acomodei minha amiga, deitadinha de lado com seu vestidinho cor de rosa. Tampei a caixa, com o cuidado para que não entrasse terra, afinal, ela sempre foi muito limpa e cheirosa e merecia estar em um lugar limpo e cuidado também.
Meio-dia! Essa foi a hora do seu enterro. Tudo parecia muito quieto. Só o barulho de passarinhos e uma sensação de estar enterrando um entezinho tão querido e amado e suplicando a Deus o perdão, caso estivesse cometendo algum pecado. Pedi perdão a minha amiga pela decisão e espero, do fundo da minha alma, ter feito a coisa certa.
Essa foi de longe, a dor mais doída que já senti.
Aqui, uma homenagem a minha doce e amada Peggy. Companheira e dedicada, amorosa e inesquecível cachorrinha.
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| Em seu último mês, o olhar perdido, a pata imóvel e inchada e uma dor permanente |