quarta-feira, 29 de agosto de 2007

NOSSOS VELHOS



Pais heróis e mães rainhas do lar.
Passamos boa parte da nossa existência cultivando estes estereótipos. Até que um dia
o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça.
A rainha do lar começa a ter dificuldade de concluir as frases e dá pra implicar com a empregada. O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra?
Fizeram 80 anos.
Nossos pais envelhecem.
Ninguém havia nos preparado pra isso.
Um belo dia eles perdem o garbo,
ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas.
Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vezde eles serem cuidados e mimados por nós, nem que pra isso recorram a uma chantagenzinha emocional.
Têm muita quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam.
Não fazem mais planos a longo prazo,
agora dedicam-se a pequenas aventuras,
como comer escondido tudo o que o médico proibiu.
Estão com manchas na pele.
Ficam tristes de repente.
Mas não estão caducos:
caducos ficam os filhos,
que relutam em aceitar o ciclo da vida.
É complicado aceitar que nossos heróis e rainhas
já não estão no controle da situação.
Estão frágeis e um pouco esquecidos, têm este direito, mas seguimos exigindo deles a
energia de uma usina. Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo.
Ficamos irritados se eles se atrapalham com o celular
e ainda temos a cara-de-pau de corrigi-los quando usam expressões em desuso:
calça de brim? frege?auto de praça? Em vez de aceitarmos com serenidade o
fato de que as pessoas adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos,
simplesmente ficamos irritados por eles terem traídonossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis.
Provocamos discussões inúteis
e os enervamos com nossa insistência para que tudo sigacomo sempre foi. .
Essa nossa intolerância só pode ser medo.
Medo de perdê-los,
e medo de perdermos a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais.
É uma enrascada essa tal de passagem do tempo. Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar as etapas dos outros, ainda mais quando os outros são papai e mamãe,
nossos alicerces, aqueles para quem sempre podíamos voltar, e que agora estão dando sinais
de que um dia irão partir sem nós.
Só posso agradecer a Deus por ter meus pais (bem longe dos oitenta) e meus avós, que por tempo foram meus pais e já chegaram aos oitenta. Agradecer a Deus pela graça de tê-los e pedir desculpas pelas vezes que os fiz chorar ou dei sinais de impaciência.
Beijos aos meus "velhos" amados. E gostaria de dizer que, pra mim, além de heróis, foram e são um exemplo de honestidade, trabalho e pessoas de bem.
Beijinhos aos visitantes de hj.

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